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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Leitura do Dia

“Roteiro de Lisboa a Goa”, por D. João de Castro (anotado por João de Andrade Corvo).

“Sabbado treze de abril, amanhecendo, vimos a palma, que he hua das Ilhas das canareas, e logo fiz prestes a lamina e estormento de sombras, de que um muito excelente princepe o Iffante dom Luis me fez mercê, com grande deseio de verificar duas cousas: 

a primeira, se nesta Ilha variavam as agulhas, ou não, por ser pratica de muitos pilotos que neste lugar e meridiano feria o norte de suas agulhas no verdadeiro polo do mundo; e a segunda, se era verdadeira e punctual a regra que nos deu o doctor Pero nunez, pera em toda a ora do dia em que fizer sobra sabermos a levação do polo; com o qual estromento fez as seguintes considerações, sendo todo este dia o vento calma, que a naoo não governava”.

𝘗𝘳𝘪𝘮𝘦𝘪𝘳𝘢 𝘤𝘰𝘯𝘴𝘪𝘥𝘦𝘳𝘢çã𝘰 𝘢𝘯𝘵𝘦𝘴 𝘥𝘰 𝘮𝘦𝘰 𝘥𝘪𝘢.

Estando o sol em altura de …………… 57 graos

ho estilo lançou a sombra …………….. 71 graos

contando do norte pera a banda daloeste.

𝘚𝘦𝘨𝘶𝘯𝘥𝘢 𝘤𝘰𝘯𝘴𝘪𝘥𝘦𝘳𝘢çã𝘰 𝘢𝘯𝘵𝘦𝘴 𝘥𝘰 𝘮𝘦𝘰 𝘥𝘪𝘢.

Estando o sol em altura de …………… 61 graos

ho estilo lançou a sombra …………….. 64 graos

contando do norte pera a banda daloeste.


pp. 27-32.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Leitura do Dia

“Historia Tragico-Maritima”, Tomo II, por Bernardo Gomes de Brito.


"Chegando a vinte e seis gràos do Sul hum dia à bocca da noite (ou huma noite bocca da morte) hindo a Nao com todas as vèlas dadas, e ellas cheyas de todo o vento que podiaõ recolher, que nao seria pouco: pois só da Gàvea tinha mil seis centas varas, segundo o Mestre me disse; e nòs todos tão contentes por nos ter entrado aquella tarde vento que desejávamos; eisque subitamente quebra, e desaparece o lème, e sey eu por boa via, que a causa foy desobediencia pura, que no mar e na terra sempre obra semelhantes effeitos.

Jà V. R. vê, que noite aquella seria para primeira meditaçaõ dos Novissimos, naõ imaginando, que couza he a morte, senaõ vendo com os olhos sua propria figura; cujo preludio foy huma confissão, que todos fizemos para victima desta vida.

O dia seguinte, e alguns mais se gastàraõ em deliberar sobre o remédio, que forao dous mastros, ou vergas lançadas por popa, ao modo com que se governaõ os barcos de riba do Douro; e acabado este, se gastàraõ outros tantos dias no acordo da derrota, que se tomaria; athè final rezoluça que foy hir em demanda da Bahia de todos os Santos no Brazil, ainda que contra hum expresso Regimento d'EìRey, porque necessidade naõ tem ley”.

Págs. 323-4.

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Documentários

"Caravelas e Naus - Um Choque Tecnológico nos séculos XV e XVI"

Quando descrevi a viagem de Lisboa para Goa no meu romance histórico O Oriente Místico de Chao Balós fiz pesquisa exaustiva sobre a vida a bordo das naus e galeões da Carreira das Índias. Consultei crónicas e roteiros coevos. Quis ser o mais fiel possível à realidade de então. Deparei-me depois com o documentário "Caravelas e Naus - Um Choque Tecnológico nos séculos XV e XVI", da Panavideo Produções, disponível no YouTube. 

Vale a pena ver >>> https://youtu.be/7xUEZt0_osc






sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Capítulo XXVI

O que Abenabo conhecia de Jerusálem 

    “Depois de Abenabo me falar miudamente da rua vulgarmente dita da amargura, pela qual Jesus Cristo foi com a Cruz às costas, desde a casa de Pilatos, até ao Calvário, onde foi por nós oferecido, e sacrificado, para a salvação do mundo, ouvi dele com muita curiosidade que o sagrado Monte Olivete fica numa encosta, em que subindo por um certo caminho, e chegando no meio dele, se acha à vista o Templo de Salamão, e quase toda a cidade.

É o dito Monte Olivete, onde o nosso Redentor recebeu a traição de Judas (que o entregou aos Romanos, antes d’Ele ir à casa de Caiphas, e à casa de Pilatos, e daqui ao Calvário), muy venerado por Turcos, e mouros, assim como por cristãos de muitas nações, que se põem ali a orar, e a cantar, e a contemplar, na vigília D’Ascensão de Nosso Senhor.

    Na Capela D’Ascensão fazem os moçalmans grande devoção à pedra onde está uma pegada do Redentor do mundo quando Ele teve por bem tornar aos Céus. A outra metade desta pedra, também com outra pegada de Jesus, está no Templo de Salamão, ali posta quando a terra era de cristãos, sendo agora tida em grande veneração por Turcos, e mouros”.

quinta-feira, 15 de setembro de 2022

"𝐎 𝐎𝐫𝐢𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐌í𝐬𝐭𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐂𝐡𝐚𝐨 𝐁𝐚𝐥ó𝐬", 𝐏𝐞𝐝𝐫𝐨 𝐃𝐚𝐧𝐢𝐞𝐥 𝐝𝐞 𝐎𝐥𝐢𝐯𝐞𝐢𝐫𝐚, 𝐌𝐚𝐢𝐨 𝟐𝟎𝟐𝟐.

Leia a história de um português do século XVI que deixa o Reino de Portugal e se aventura no Oriente distante onde conhece Fernão Mendes Pinto, Luís Vaz de Camões e S. Francisco Xavier: https://www.amzn.com/B09Y6B8Y5Q

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

"O Oriente Místico de Chao Balós", Cap. XXI

Ardil para tentar convencer o governador Nuno da Cunha a atacar Mascate

“Como havia que magicar alguma cousa para acabar com esta ameaça me fui com todas as pressas à fortaleza pedir uma audiência ao Governador Nuno da Cunha. E como era necessário ao meu propósito lhe persuadir a cometer os traidores de Mascáte, usei o artifício, que todos eles nada mais tinham como tenção, do que acabar com a sua vida nesta cidade de Goa; porque escutando por ocaso uma conversa na villa de Mascáte, pusera a descoberto três homens da terra de grossas fazendas.

Estavam eles muy desagradados com o tratamento que os Portugueses davam aos barcos Arabios, os quais muitas vezes eram roubados, e faziam deles suas presas, ou os metiam no fundo do mar. Ouvi injuriosas palavras, e terríveis ameaças, que todos juraram fazer a Nuno da Cunha, por causa das suplicias que os nossos infligiam aos embarcados; porque se uns não escapavam da morte, outros tinham a má fortuna de ficar cativos, ou ser vendidos como escravos. Para eles havia que acabar com todas estas maldades, em razão dos Portugueses corromperem a boa convivência dos que seguiam a Lei de Mafamede, pondo uns contra os outros; porque se muitos eram seus inimigos, havia também mouros seus aliados”.

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

"O Oriente Místico de Chao Balós", Cap. XX

Cativos no mar Arábico 

“Depois de levantarmos âncora deste formoso porto de Mascáte, velejávamos por nossa derrota no mar alto quando enxergámos a aproximação de duas naus pejadas de mouros, sem pormos diante dos olhos o cometimento que nos esperava.

Ao percebermos que as ditas embarcações nos vinham fazer guerra, empreendemos as maiores pressas para fugirmos do perigo em que já estávamos metidos; porém fomos logo assombrados com tiros de falcões, roqueiros, e berços, que nos romperam as velas. Três dos nossos morreram queimados, por causa das panelas de pólvora, que lançaram sobre nós, e ao sermos abalroados puseram 50 ou 60 mouros dentro da nau, ficando todos nós rendidos”.

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

"O Oriente Místico de Chao Balós", Cap. XIX

Viagem à Arábia e Pérsia

“Aziscão, da privança do Xech Raxit, passava muitas vezes à cidade de Goa aonde fazia com muy grosso proveito o trato privado de aljofre, e pérolas da ilha Barem, que fica ali a cinco dias de navegação de Ormuz. Homem muito alto, e formoso, de tez alva, e bem apessoado, vestia os seus panos de seda apertados por uma rica cinta com adaga guarnecida a ouro, e prata.

Muito me alegrava fazer falas com a sua filha, por nome Caman, quando os parentes, e as criadas, não estavam por perto, e os dois mercadores se deleitavam à mesa por largo tempo com faustos banquetes, recolhendo-se depois para tocar, e ouvir boa música, com os instrumentos próprios da terra. O meu coração palpitava, como que a querer sair fora do peito, quando trocávamos olhares, ou cochichávamos fora das vistas do seu pai, e todos os seus outros parentes”.

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Momento Quora

Qual é o seu escritor preferido?

Fernão Mendes Pinto, sem dúvida!
(Montemor-o-Velho, 1510–1514 - Pragal, Almada, 8 de Julho de 1583)

A sua "Peregrinação" é um hino à literatura portuguesa. Não obstante a versão original ter sido escrita num português bastante difícil de assimilar para a maioria das pessoas de hoje, é meu entendimento que o conteúdo surpreende, muitas vezes, pela formosura das palavras empregues e por narrativas inimagináveis de acontecer no Velho Continente, tanto no século XVII (a obra só foi lançada em 1614), como agora.

"Peregrinação" é importante para conhecer, e entender, a vida e as tradições de vários povos orientais, assim como alguns factos importantes da sua história. Comummente, o aventureiro português deixa-nos testemunho sobre as características das gentes e dos lugares por onde terá passado, descrevendo diversos eventos históricos com o pragmatismo que se lhe conhece.

O cronista tem sido injustamente acusado de ser mentiroso - há aquela famosa expressão, "Fernão, Mentes? Minto!". Embora a obra literária seja supostamente de carácter autobiográfico, também é certo haver nela algo de fantasioso. 


No entanto, está comprovado que muitos factos descritos na "Peregrinação" são bastante fidedignos, sem esquecer que o autor terá se deparado com vários acontecimentos por interpostas pessoas, estando eu certo que decidiu inclui-los na narrativa de forma ficcionada por serem importantes para o conhecimento na Europa de então.


Veja o link no Quora: https://qr.ae/pvwXqk

quarta-feira, 20 de julho de 2022

Capítulo X

Cabo das Agulhas e Cabo das Correntes:

“A jornada continuava a tirar esta minha pessoa das muitas ignorâncias que tinha do mundo, ao ficar agora a saber pelo nosso piloto mor que o promontório do cabo das Agulhas ganhara este nome, por ser nesta paragem que as agulhas de marear feriam nos verdadeiros pollos do mundo; porque olhavam contra o Norte. Na manhã do outro dia fomos atingidos por um vento rijíssimo de causar muito enjoo, abrandavam um bocado as cargas de neve, que caíam no mar oceano fazia dois dias.

Abalados pelos contrastes que nos sobrevieram, fomos forçados a nos apartar, uns dos outros, andando cada nave da Armada pelo caminho que melhor lhe pareceu. E como o frio me apoquentava a carne, chegou a febre acesa neste tempo, pela qual razão fiquei recolhido no camarote, até chegarmos a Moçambique. Só Deus, Nosso Senhor, sabe os muitos trabalhos que a nau Salvador passou para governar ao longo da costa; porque as grandes correntes de águas muito rijas [que vinham do Cabo das Correntes] faziam a embarcação descair muito a Sudueste”.


domingo, 17 de julho de 2022

Capítulo IX

 Perigo de Vida:

"Abatido pela fadiga, que resultava de largas semanas de viagem no mar alto, foi numa certa tarde ventosa de me causar assaz de aborrecimento que aproveitei para tomar algum repouso; porém depressa acordei sobressaltado, por causa da ondulação que teimava em sacudir a nau. Cuidei em tomar o ar fresco no convés; mas o vento soprava muito rijo de Norte, e o sol mal alumiado queria muito nos deixar à sorte. O cheiro fétido a pairar no ar era sinal mais do que aprovado que o diabo esfregava as mãos de vil satisfação, por estar muy pronto a reclamar mais algumas almas para as profundezas do Inferno.

Fiquei muy assustado quando meteu tanto mar no costado, que mais parecia que a nau ia ao fundo a cada balanço que dava, e mais temeroso fiquei quando arreei os joelhos no tabuado logo após o embate de outra vaga de água no costado. Havia que sair deste horrível lugar, o quanto antes, e tomar abrigo em parte segura. Com assaz de pressa quis galgar para o chapitéu de popa; mas ao agarrar as madeiras da nau, para não perder o equilíbrio, fiquei com o rosto tomado pelo horror; porque uma grandíssima tromba de água varreu o convés, sem dela escaparem quatro marinheiros. A morte chegara muy apressada para eles!

Pus os olhos no céu, neste mesmo instante, tinha a roupa toda encharcada pela água da chuva. O vento rijo não queria repousar em nenhuma parte, e o frio a bater no rosto era sinal que a morte não guardava segredos nesta latitude. Quanto mais a nave cambaleava na fúria da tempestade maior era o medo de perdermos o leme. Roguei a Deus para que os dois homens muito rijos, que meneavam o leme com muy esforço de suas pessoas, o fizessem de contínuo, sem nunca levantar as mãos dele”.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Capítulo VIII

 Mortes a lamentar:

"Os tementes a Deus, com os joelhos prostrados defronte do altar, rompiam os ares com a voz em grito, pedindo-Lhe misericórdia para ficarem em salvo das enfermidades, assim como dos medos, e anseios, que tomavam conta das suas almas. Nem todos iam ter a felicidade de passar à India, pois havia mortes a lamentar pelo caminho. E sendo a que mais horror causou nos embarcados lembro agora o falecimento do barbeiro Francisco Tomé, que deu o último suspiro após a quinta sangria, que lhe fez um grumete no derradeiro dia de sua vida; posto que nem menos cinquenta onças de sangue terminaram com a grande tormenta da febre, que muito o afligia.

Chorei mil lágrimas quando o corpo do defunto, envolto numa mortalha, e com uma bola atada nos pés, foi lançado ao mar pouco depois de ser lembrada a sua habilidade para arrancar os dentes estragados dos embarcados. Francisco Tomé faleceu desta vida com mostras de muito bom cristão, o que a todos nos animou, e muito nos consolou”.


segunda-feira, 11 de julho de 2022

Capítulo VII

 O triste fim de um grumete:

"Num destes dias de grande tédio, por sinal de má memória, caiu à água do mar o grumete, por nome Martim da Gallega, que pouco sabia nadar. Os gritos do infeliz causaram logo grande alvoroço, e posto que alguns embarcados lhe atiraram com prontidão duas pipas, e algumas cordas, e com isso feito o desgraçado se manteve à tona de água muito esforçadamente, chegou tarde o salvamento; porque sendo o dito grumete trazido para o convés, passada que estava uma hora e meia de sua triste queda, deu com assaz agonia o derradeiro suspiro no braço do Padre Lançarote. 

Confessando-se, a muito custo, pouco antes de partir desta vida temporal, escorreram em nós muitas lágrimas de alegria pelo consolo de sabermos que não perdera a vida eterna. Paz à sua alma! A morte do dito grumete levantou suspeita, e o mareante que mostrou resistência ao socorro (o tal que muito o repreendia, e muito lhe batia) foi achado culpado. Em boa verdade fora eu quem dissera ao meirinho o que ouvira do próprio Martim da Gallega, acerca das ameaças que tivera do rude marinheiro:

– Temia muito ser mandado borda fora no breu da noite, se botasse faladura do concerto havido entre os corruptos marinheiros, e a horrível mulher com o cabelo curto, a que fora achada roupada como homem...”


sábado, 9 de julho de 2022

Capítulo VI

O terrível pairo:

"Com a nau ao pairo chegaram os fortes calores, as doenças tomaram conta dos desafortunados, e muitos passageiros foram tomados pelo enfadamento. Tanto estragada ficou a maior parte das cousas de comer; porque tanto fervia o azeite, o mel, a manteiga, e a marmelada, assim como corrompida no sabor se achou a fruta passada, e outras cousas da nossa alimentação. A água das pipas, parecendo criar bichos, era de tão mau cheiro, que para evitarmos a revolta das entranhas a bebíamos em pequenos goles, com os olhos fechados, e o nariz tapado.

A falta de água doce era a maior preocupação do Padre Miguel Lançarote (ficou como enfermeiro certo para o resto da viagem); porque sem ela não sossegavam os maus humores dos enfermos nem se cozia a carne de galinha para fazer o caldo que muito socorro dava à cura de todos eles. Mas como era desolador ver a frota rodeada por tanta água do mar oceano, que para nada servia, nem para saciar a sede nem para a cozedura dos alimentos, tão pouco para lavar o corpo!


 

quarta-feira, 22 de junho de 2022

"O Oriente Místico de Chao Balós", Cap. V

Pareceres dos pilotos sobre a derrota da Armada:

"Ao décimo dia de viagem escutei dois tiros da capitânia, por ser necessário que chegassem até nós os pilotos da Armada, e saber que parecer tinham de quantas léguas íamos afastados do rio Grande, e quanto tempo iam as velas esperar na ilha a que chamamos Moçambique. Concordaram todos com o piloto mor que a derrota tinha de ser feita por dentro, chegando nós ao cabo de Boa Esperança, até aos 25 do mês de Julho, e que a partida da fortaleza de Moçambique (para passarmos à India) acontecia dos 10 aos 15 dias do mês de Agosto, seguindo a derrota da ilha do Combaro. E se a Armada dobrasse tarde o cabo de Boa Esperança? Seria a governação feita por fora da ilha de São Lourenço?

Os pilotos da Santo Espírito, e da São Leão, mostraram oposição; porque as suas naus levavam muita gente, e havia pouca água doce disponível para tão larga viagem. Para eles era mais certo invernar em Moçambique, do que passar pelo perigo de morrermos todos à sede. Para o piloto da Loba era aconselhável fazer a derrota por fora, mesmo com o risco de perdermos vidas, que não chegariam a uma sexta parte, se a Armada fosse invernar em Moçambique, onde as doenças iam consumir muitas mais almas, cada dia que gastássemos em terra. Por derradeiro, assentando com o capitão mor que a derrota se faria por dentro, assinaram todos a causa, e tornaram de batel às suas naus”.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

"O Oriente Místico de Chao Balós", Cap. IV

Fala com Diogo da Silveira, capitão-mor da Armada:

"Soprava o vento ligeiro de Noroeste, quando no meu rosto surgiu um pajem muy embonecado, com recado do nosso capitão mor, que me queria falar. A Ruffino do Salvador pedi que cuidasse das minhas cousas da viagem, pelo meu grande receio que mais alguém as tomasse como suas. Cometido por uma arreliadora má disposição, esperançava que o mar Atlântico não prolongasse tão desajeitada coreografia de atazanar a nau com mais solavancos.

Seguindo detrás do pajem, foi ele bater à porta do camarote do meirinho, ali defronte da acomodação do escrivão, e passando os meus olhos no interior, assim que o dito meirinho abriu a porta, reparei que o catre olhava para a mesa, em cima da qual pousavam uns papéis desordenados, o tinteiro, e a pena de escrever. Num canto da banda de cá achava-se um círio, e por baixo da mesa, diante da cadeira de pau, ficava uma arca.

Dando o pajem recado, que o capitão mor lhe queria falar, arrumou o meirinho, com assaz de pressa, os papéis que pousavam na mesa, e logo que saiu do camarote fechou a porta, muito bem fechada, com sua chave. Indo nós, os três, muy solenemente até Diogo da Silveira, achava-se ele na sua câmara assentado numa cadeira de espaldas, ali defronte da mesa lacada, onde pousava o relógio de areia, e alguns papéis desarrumados, a par da carta de marear, com umas pinturas ao natural dos sítios, das feições da terra, e do mar oceano".

quarta-feira, 15 de junho de 2022

"O Oriente Místico de Chao Balós", Cap. III

Partida do rio Tejo para a Índia:

"Na boca do rio Tejo se deteve a frota até o vento ser suficiente à viagem, e a capitânia disparar um tiro, sinal mais do que aprovado que era chegado o momento de nos pormos ao caminho. Nas costas da nau Salvador iam as velas dos capitães Dom Antonio D’Almeida, que ia na nau Santo Espírito, Manoel de Macedo, que ia no galeão São Leão, Pero D’Afonseca, que ia na nau Loba, do armador Jorge Lopes Bixorda, e Aires da Cunha, que ia na nau São Miguel.

Navegando para fora do rio Tejo, fomos escoltados por três caravelas da Armada da Costa, as quais, por ordem expressa d’el Rey, zelavam pela segurança de nossas pessoas. Deixando para trás o Promontório Bárbaro, fomos descendo a costa e surgimos à vista do Promontório Sacro, onde numa longa data esteve oculto o corpo do diácono e mártir São Vicente. Porque havia notícia de algumas velas de mouros a navegar não muito longe das ditas paragens, e para que estes barcos pejados de ladrões não fossem tentados a nos cometer mais a Sul, se fez a rendição da Armada da Costa ao largo do Promontório Sacro, por duas caravelas da Armada do Estreito".


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